Arquivo do mês: janeiro 2014

Dinheiro no Mar

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Por Marcos Scotti – Uma das profissões mais antigas da humanidade está revendo seus conceitos e praticando o que tanto se fala desde a Eco92, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro: o desenvolvimento sustentado.

Em fazendas marinhas, peixes, camarões, ostras, mariscos, vieiras, entre outras espécies de frutos do mar, ganham ‘status’ de especiarias, despertam o interesse econômico, aguçam as glândulas salivares, geram renda e qualidade de vida e contribuem para o equilíbrio do meio ambiente. Na alimentação, esses frutos do mar são uma ótima opção na manutenção da saúde do ser humano.

Mas, para chegar a essa constatação, foi preciso o pescador artesanal sentir na pele a diminuição radical da quantidade de pescados, fruto da caça predatória no mar, e os organismos públicos se sentirem pressionados, quer seja pela necessidade de socorrer socialmente comunidades litorâneas tradicionais ou pela necessidade de se definir políticas de proteção ambiental para o ambiente marinho.

Assim, no final do século passado – a partir de 1990 – o Brasil começou a despertar para a riqueza da vida nos oceanos e suas possibilidades econômicas, e passou a desenvolver estudos para a implantação de cultivos de diferentes espécies marinhas em fazendas protegidas em baías e estuários. Universidades, entidades públicas de ex-tensão rural e associações de pescadores passaram a pensar de forma racional a exploração de camarões, ostras, mariscos…

Santa Catarina saiu na frente. “Criar moluscos é uma solução para melhorar a renda e a vida do pescador, alem de manter o meio ambiente saudável”, diz Juarez Tadeu Espelocim dos Santos”, presidente do Sindicato dos Pescadores de Santa Catarina e um dos fundadores da Associação dos Maricultores da Palhoça, município da Grande Florianópolis. “Naquele tempo, os costões das praias e ilhas do litoral eram ricos em mariscos. Era fácil apanhar e levar para a praia, para a peixaria ou para as fazendas que começavam a ser implantadas ali no Mar de Dentro”, conta Juarez, de frente para o mar da Pinheira, onde vive com Dona Rosa, sua esposa. Hoje, lamenta Juarez, a dificuldade começa em se encontrar sementes para a produção comercial de mariscos. “Nos costões, as pedras estão limpas e o que é produzido em laboratório não é suficiente”, conta ele.

Osmarina Sedrez herdou do pai a vocação para a pesca. Com duas áreas para a malacocultura (cultivo de mariscos) que somam 15.200 metros quadrados na Ponta do Papagaio e Praia do Sonho, na Palhoça, Osmarina – que também administra a peixaria fundada pelo pai – diz que a maricultura é uma atividade de risco e precisa de mais atenção das autoridades. “Além dos problemas com a aquisição de sementes, o financiamento para a atividade praticamente não existe, como também não existe um seguro que cubra a produção em caso de perdas”, diz a malacocultora que já viu algumas vezes sua produção ser levada pelo desequilíbrio ambiental no mar. “No ano passado, por duas vezes a maré vermelha impediu a colheita. Os prejuízos foram grandes”, conta Osmarina.

Ivan Taffarel, oceanógrafo e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina, lamenta a falta de valorização da atividade: “Há dez anos o preço do marisco não sofre alteração. Nós temos pesquisa suficiente e condições favoráveis para produzir muito mais do que produzimos e com qualidade melhor. No entanto, ainda estamos engatinhando por falta de financiamento e políticas claras para o setor”, diz Ivan, que divide seu tempo entre a UFSC, sua produção de mariscos na Ponta do Papagaio e a consultoria que presta a uma empresa dos EUA, especializada na produção de sementes. “Lá (nos EUA) são produzidas mais de 40 milhões de toneladas de sementes a cada nova safra”, compara o oceanógrafo.

Produção brasileira – Relatório da FAO, organismo das Nações Unidas para a alimentação, mostrou que a produção da aqüicultura brasileira respondeu por um pouco mais de 38 milhões de toneladas em 1999. Deste total, 17,3 milhões de toneladas eram de peixes de água doce e 9,1 milhões de toneladas de moluscos (o Brasil produz ainda plantas aquáticas, peixes mixualinos, crustáceos, peixes marinhos e outras espécies como rãs e quelônios).

Segundo a Epagri, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, somente a produção de moluscos comercializados em Santa Catarina (mexilhões  ou mariscos, ostras e vieiras) em 2008 foi de pouco mais de 13 milhões de toneladas, 95% de toda a produção brasileira. O pico da produção catarinense chegou a 15 milhões de toneladas em uma safra. “Muito pouco para um país com tanta água e diversidade”, diz Taffarel. Transformada em moeda, a produção daquele ano movimentou R$ 29.709.300,00 no estado. “De tudo o que se arrecada com a venda do marisco, muito pouco fica com o produtor”, reclama Osmarina Sedrez.

No estado catarinense são 643 maricultores, representados por 20 associações municipais, uma estadual, uma cooperativa e duas federações, distribuídas em 12 municípios na região litorânea entre os municípios de Palhoça – que responde por mais da metade da produção de SC – e São Francisco do Sul. Aliás, as águas da praia da Pinheira, no município de Palhoça, já foram consideradas as melhores do mundo para a criação de moluscos.

“A exemplo de outros programas de sanidade animal (o estado é o único da Federação considerado território livre da aftosa sem vacinação), Santa Catarina tem tecnologia para garantir moluscos de qualidade ao consumidor”, diz o empresário e produtor no “Mar de Dentro”, a baía sul de Florianópolis, na Palhoça, Nilton Pereira.

Pesquisa de vanguarda – Em Santa Catarina, estudos de laboratório são conduzidos pela Epagri, Universidade do Vale do Itajaí – Univali, e Universidade Federal de Santa Catarina  UFSC, que buscam disponibilizar tecnologia, produzir sementes, monitorar a qualidade da água nos locais de produção e estudar a inclusão de novos moluscos para cultivo no estado.

A maricultura ganhou impulso e transformou Santa Catarina no maior produtor brasileiro de moluscos com a implantação pela Universidade Federal de Santa Catarina do Laboratório de Moluscos Marinhos – LMM, em 1983, um braço do Departamento de Aqüicultura da UFSC. O laboratório, instalado em parceria com a Epagri, mudou o perfil das colônias de pesca do litoral catarinense e transformou a paisagem das baías e estuários da Grande Florianópolis.

O LMM se dedicou inicialmente ao estudo da produção de sementes de ostras japonesas (Crassostrea gigas), isso porque, no entender dos pesquisadores, no caso dos mariscos é preferível, em termos de viabilidade econômica, a obtenção de sementes a partir dos assentamentos naturais com tecnologia ambiental ou através do uso de coletores manufaturados – cordas ou cabos esticados entre as pencas de mariscos – previamente instalados em locais adequados à captação. Tais sementes, ao serem desovadas pelos moluscos adultos, se fixam rapidamente onde encontram apoio para isso. A tecnologia dos coletores nasceu em laboratório, numa alternativa à caça desenfreada das conchas nos costões.

Na Penha, o Laboratório de Produção de Moluscos do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar da Univali – Universidade do Vale do Itajaí, produz tecnologia e sementes de mariscos, ostras e vieiras para o litoral centro-norte catarinense. “Nossos estudos foram iniciados em 1994 com o intuito de profissionalizar cientificamente a produção de moluscos, uma das principais fontes de renda oriundas de recursos marinhos no mundo”, comenta o diretor do CTTMar, Fernando Luiz Diehl.

“Apesar dos importantes números do crescimento da atividade nos últimos anos, a captura desordenada de sementes de mariscos nos costões se reflete diretamente na diminuição da produção. Com o laboratório, pretende-se minimizar esse impacto”, explica Gilberto Manzoni, professor responsável pelo laboratório.

No Paraná, a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos trabalha com o programa “Zoneamento Marinho ‘Mar e Costa’”, para promover o desenvolvimento sustentável no litoral do estado. “É muito importante que tenhamos ações voltadas à conservação da área costeira devido à constante pressão da atual dinâmica de uso e ocupação”, considera o ex-secretário Rasca Rodrigues. Um levantamento completo sobre potencialidades e fragilidades de cada ecossistema de 103 comunidades ribeirinhas do litoral paranaense deu à secretaria subsídios para definir ações para o crescimento ordenado da maricultura no estado. Entre as atividades do programa está o licenciamento ambiental para produção de ostras e mariscos e o monitoramento da qualidade ambiental em toda área costeira.

Considerado um dos mais complexos sistemas estuarinos do mundo, as baías de Paranaguá, Antonina, Guaraqueçaba e Guaratuba – 52 mil quilômetros quadrados, a maioria preservados em áreas de proteção ambiental – oferecem condições propícias à criação de ostras nativas. Nesse caminho trabalham os laboratórios marinhos da Universidade Federal do Paraná e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, aliados ao sistema de Extensão Rural da Emater-PR.

O Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, desde 2005, produz sementes de ostras nativas para os produtores do litoral. O Projeto de Desenvolvimento da Aquicultura e Pesca no Litoral do Paraná, coordenado pela Emater-PR, prevê a instalação de cultivos nos municípios de Guaraqueçaba, Paranaguá e Guaratuba. Num primeiro momento, 114 famílias de pescadores artesanais (aproximadamente 270 pessoas), vinculadas a associações ou colônias de pescadores, foram beneficiadas.

Na Universidade Federal, o projeto Cultimar, que recebeu prêmios nacionais de responsabilidade social, além de pesquisas para a demanda da maricultura, trabalha para aumentar a aceitação dos frutos do mar junto ao consumidor. Antônio Ostrensky, coordenador do Cultimar, explica que o projeto faz monitoramento quinzenal junto aos produtores de ostras. “Se o produto não tiver nenhum problema, emitimos um selo garantindo sua qualidade. Se algo de anormal for detectado, corrigimos a situação”, diz ele. (Matéria publicada originalmente na revista “Bem Público”, edição 29).

Maré vermelha

Em 2007, a Vigilância Sanitária apreendeu meia tonelada de mariscos no município de Bombinhas, Santa Catarina, devido à contaminação que provocou intoxicação em 130 pessoas que ingeriram o molusco. Diarréia, febre alta, dor de cabeça e vômito foram os sintomas registrados no atendimento médico.

A análise mostrou que os mariscos foram contaminados pela alga Dinophysis acuminata, com tamanho 50 vezes menor que a cabeça de um alfinete, responsável por  uma toxina que afeta o sistema digestivo humano. Aos mariscos, a toxina não afeta em nada.

A alga é um organismo comum nos mares. Quando em sua população normal, não causam problemas. No entanto, o desequilíbrio ambiental provocado principalmente pelo aumento da matéria orgânica e poluentes nas águas das baías e estuários, provoca uma explosão na população de algas. À essa explosão dá-se o nome de “Maré Vermelha”.

Ocorre que moluscos são organismos filtradores e, para não causarem intoxicações ao homem, precisam de água limpa para crescer sem problemas.

Para manter a qualidade de ostras, mariscos e vieiras, os laboratórios do Paraná e Santa Catarina realizam análises periódicas dos moluscos. “Mariscos e ostras são ótimos ‘termômetros’ ambientais. Se estiverem limpos, a água é boa”, dizem os técnicos.

Na região da Grande Florianópolis, o laboratório da UFSC recolhe amostras dos moluscos a cada 15 dias para análise. Ao menor sinal de contaminação, a comercialização é imediatamente suspensa. “Nesse caso é complicado. Passamos um bom tempo esperando um resultado que na maioria das vezes é negativo. Perdemos na comercialização”, reclama Osmarina Sedrez, maricultora na Palhoça. “É preciso agilidade na análise para que o produtor não tenha prejuízo”, diz ela. É preciso dizer que, com o afastamento da ‘Maré Vermelha’ os moluscos podem ser consumidos normalmente.

Em março de 2009 a Epagri iniciou o projeto projeto Controle Higiênico-sanitário de Moluscos Bivalves no Litoral de Santa Catarina, com recursos do Ministério da Pesca e Aquicultura e da Secretaria de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural. “Este projeto envolve investigações sobre a qualidade sanitária da água e dos moluscos nas áreas onde se cultiva moluscos bivalves no estado e também um monitoramento sobre florações de algas nocivas, conhecidas popularmente como marés vermelhas”, informa o pesquisador da Epagri/Cedap, Robson Ventura de Souza, lembrando que o projeto prevê também ações de educação sobre boas práticas sanitárias de manejo dos moluscos nas etapas pós-colheita.

Em andamento, o projeto contempla a realização de uma grande investigação sobre a situação sanitária de todas as áreas onde existem cultivos. Ações como o levantamento da localização das fontes de poluição hídrica e da proximidade dessas às áreas de cultivo, monitoramento envolvendo análises microbiológicas de água e dos moluscos, além de análises de metais pesados (chumbo, cobre, cádmio, mercúrio e zinco) nos moluscos são alguns dos parâmetros estudados num total de 40 pontos ao longo do litoral catarinense.

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