Arquivo do mês: fevereiro 2014

Pressão põe em risco biodiversidade no litoral sul

 

Por Marcos Scotti – Manguezais, restingas, florestas, planícies, montanhas, rios, cachoeiras, baías, mar e ilhas paradisíacas. Poucos lugares no imenso litoral brasileiro reúnem num espaço relativamente pequeno tanta diversidade de vida e ambientes quanto o litoral do Paraná.

Espremido entre a Serra do Mar e o Atlântico, uma faixa de terra de não mais de 98 quilômetros de sul a norte, no particular ecossistema do litoral paranaense, o papagaio chauá ressurgiu da extinção, o mico leão da cara preta, descoberto em 1990 na Ilha de Superagui, espécie endêmica, só encontrada naquele ambiente de Mata Atlântica, sobrevive, e o biguá ainda voa.  Continuar lendo

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Preservar evita prejuízo

Por Marcos Scotti e Arthur Conceição – Em fevereiro de 2011 as chuvas que caíram sobre o litoral do Paraná levaram pontes, árvores, pedras, muita terra e casas. Ao todo 548 residências foram destruídas por completo e outras 3.006 danificadas nas cidades de Antonina, Morretes, Matinhos e Paranaguá. Apesar do tamanho da tragédia somente quatro mortes foram registradas, felizmente. Segundo o geólogo Eduardo Salamuni, ex-presidente da Mineropar – Minerais do Paraná S/A, órgão técnico responsável do governo do estado pelo estudo dos solos -, se os morros da Serra do Mar não fossem protegidos, não tivessem cobertura vegetal, o desastre seria ainda maior. “Teríamos uma catástrofe maior do que a que ocorreu na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro, se não tivessemos áreas preservadas. As unidades de conservação evitaram uma destruição maior”, explica Salamuni. O geólogo explica que também as planícies preservadas no seu estado natural, entre a serra e o mar, e os manguezais, têm vital importância para não assorear os rios e canais de navegação. Biólogos e engenheiros ambientais partilham da mesma opinião: o espaço uniforme de mata existente de forma alinhada entre as montanhas e o mar é um verdadeiro mosaico de diferentes espécies de plantas, que ajudam a conter catástrofes ambientais. Além disso, a manutenção da flora no litoral corrige os ventos e tempera a umidade da serra. Economicamente esse espaço florestal deve ser preservado. Segundo o ambientalista Clovis Borges, diretor executivo da SPVS – Sociedade de Pesquisa da Vida Selvagem, a atividade portuária está intimamente ligada à preservação ambiental da planície litorânea. “Por diversas razões, os ‘negócio do porto’ são vistos de maneira isolada do restante do litoral, muito embora sejam dependentes, por exemplo, da conservação das encostas da Serra do Mar e planícies, altamente suscetíveis a processos erosivos que acarretam assoreamentos, encarecendo sobremaneira a manutenção das atividades portuárias. O exemplo é simples: o desassoreamento do canal da Galheta, por onde entram os navios para o porto, está orçado há um custo superior a R$ 500 milhões”, explica Borges.  A preservação serve ainda para conter a ocupação irregular e, consequentemente, evitar prejuízos econômicos provocados pelo aumento da densidade urbana. Plano de Contingência O Porto de Paranaguá esteve sempre envolvido em questões polêmicas quanto à degradação ambiental do litoral. Porém, como a manutenção da atividade portuária depende diretamente da preservação da água e das matas, os ajustes feitos pelo poder público permitiram a ampliação das atividades portuárias de forma mais sustentável. No entanto, não basta apenas o porto se adaptar ou compensar as perdas ambientais provocadas por esta expansão. Os graves acidentes ocorridos em anos passados, como o derramamento de óleo provocado pelo rompimento do oleoduto da Petrobras, ou o desastre ambiental provocado pelo derramamento de óleo do navio Vicuña, em 2004, ou mesmo a tragédia de fevereiro de 2011, colocaram em evidência a carência extrema dos municípios litorâneos no que se refere à existência de planos de contingência minimamente adequados. Mesmo hoje (2014), não há entre esses municípios nenhum plano de enfrentamento de situações de crise, com pessoal capacitado, equipamentos especiais, tecnologia, treinamento das comunidades ou ações de monitoramento. Segundo agentes da Defesa Civil de Paranaguá, se ocorrer um grande acidente ambiental na região o estado não tem equipamento e nem equipes capacitadas para enfrentar um problema desses. Plano Diretor Outra preocupação dos ambientalistas está relacionada à pressão que vêm sofrendo os planos diretores dos municípios litorâneos, devido à possibilidade de novos investimentos. Hoje, apenas Paranaguá e Guaraqueçaba  município que possui quase 80% do seu território declarado como área de preservação ecológica -, têm planos diretores aprovados junto ao Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral Paranaense – Colit. Existe um número expressivo de empreendimentos de grande porte, em geral concentrados no Porto de Paranaguá e Pontal do Paraná. São atividades importantes para a economia brasileira, mas em contrapartida a questão da sustentabilidade não avançou na inclusão dos planos diretores. “Os portos são verdadeiros gargalos para expansão da econômica brasileira e o PAC tem prioridade sobre o setor portuário, porém não há nenhum plano em favor do meio ambiente. A expansão estrutural desordenada pode ser irreversível, podendo encarecer o futuro da logística. Temos exemplos como os Portos de Santos e Itajaí, que sofrem com assoreamento do canal de navegação, devido sua expansão não ter levado em conta aspectos de sustentabilidade ambiental. Temos uma cultura socioambiental que não se trabalha na origem do problema e sim quando é gerada uma situação critica, diz Mario Mantovani, da Fundação SOS Mata Atlântica. (Publicado na revista “Bem Público”, edição 35).

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Ouro do Jalapão

Artesanato com capim dourado gera renda e sustentabilidade no leste do Tocantins

Artesanato com capim dourado gera renda e sustentabilidade no leste do Tocantins

Todo final de setembro é assim. As veredas do Jalapão são visitadas por dezenas de mulheres do povoado de Mumbuca e das comunidades indígenas que vivem no interior do Parque Nacional no Leste do Tocantins em busca de ouro. Com mãos habilidosas, elas colhem o capim dourado, matéria prima para um dos mais belos artesanatos do sertão brasileiro.

O capim dourado nada mais é do que uma flor branca (syngonanthus nitens), da família das sempre-vivas. Somente a haste da flor é usada pelos artesãos. A flor, que dá origem às sementes, fica no campo. É lei ambiental, garantida pela área de preservação. Mas também é consciência da população que vive na região. Com as sementes de volta à terra, a próxima leva da produção pode ser planejada.Por conta desta cadeia de sustentabilidade, a colheita do capim dourado só acontece entre setembro e novembro, quando começa a estação das chuvas na região.

O Jalapão é uma área de 34 mil quilômetros quadrados, na transição entre o cerrado e a caatinga, lugar de vegetação rasteira, muito parecido com as savanas africanas. Lugar de turismo sustentável, no Jalapão se faz rafting em rios de águas cristalinas, toma-se banho de cachoeira, se caminha entre chapadas douradas pelo sol e formações rochosas de formas e cores variadas, e enormes dunas de areias douradas, fruto da erosão das rochas de quartzo provocada pelo vento e pela água. As dunas chegam a 30 metros de altura. No Jalapão também tem capim dourado.

Fonte de renda de muitas famílias de artesãos espalhados pelos municípios do parque, a arte do capim dourado nasceu com os índios, e foi, segundo a cultura popular, contada à avó de Dona Miúda, matriarca de Mumbuca, povoado formado por descendentes de escravos, e passada de geração a geração. Hoje o artesanato com capim dourado, que também utiliza palhas de buriti, uma árvore típica da região, sementes e pedras ornamentais, é produzido e comercializado em quase todos as comunidades.

O brilho metálico do capim dourado “costurado” pelas mulheres dá aspecto único aos brincos, pulseiras, chapéus, bolsas, mandalas, cestos e o que mais a imaginação dos artesãos criar.

Nilton Jankowski, empreendedor curitibano, se encantou pelo artesanato do Jalapão. “As peças produzidas lá são balíssimas, É ouro”, costuma comentar Nilton, que passou a importar o artesanato do Tocantins para revender no sul.

É Nilton quem conta: “Em 2004, o Instituto Natureza do Tocantins elaborou regras para a colheita das hastes de capim dourado utilizadas na confecção artesanal. Estas regras estão na Portaria 092/2005. Período de colheita restrito, as sementes ficam na terra e as hastes do capim não podem sair da região in natura. Tudo isso garante sustentabilidade às comunidades – já que gera renda aos artesãos do Jalapão – e exclusividade aos produtos ali produzidos”.

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