Pressão põe em risco biodiversidade no litoral sul

 

Por Marcos Scotti – Manguezais, restingas, florestas, planícies, montanhas, rios, cachoeiras, baías, mar e ilhas paradisíacas. Poucos lugares no imenso litoral brasileiro reúnem num espaço relativamente pequeno tanta diversidade de vida e ambientes quanto o litoral do Paraná.

Espremido entre a Serra do Mar e o Atlântico, uma faixa de terra de não mais de 98 quilômetros de sul a norte, no particular ecossistema do litoral paranaense, o papagaio chauá ressurgiu da extinção, o mico leão da cara preta, descoberto em 1990 na Ilha de Superagui, espécie endêmica, só encontrada naquele ambiente de Mata Atlântica, sobrevive, e o biguá ainda voa. 

No imenso “mar de dentro”, como dão nome os nativos à Baía de Paranaguá, centenas de espécies de peixes e crustáceos cumprem todos os anos um ritual de procriação e sobrevivência.  Esta baia é a segunda maior baia do Brasil, com 677 quilômetros quadrados de superfície, perdendo apenas para a Baia de Todos os Santos, em Salvador, na Bahia. A de Paranaguá, no entanto,somada ao estuário que se estende entre São Paulo e Paraná, é considerada como o segundo maior berçário marinho do mundo e foi tombada como Patrimônio Natural da Humanidade pela ONU.

Nos poucos quilômetros de costa e nesse ambiente do lado paranaense, foram identificadas 500 espécies de peixes marinhos, qualificados entre os capturados pela pesca artesanal nas baias de Paranaguá e Guaratuba – outro santuário ecológico -, na plataforma continental e em mar aberto.

Em terra e em grande parte do complexo estuarino-lagunar das baias paranaenses, as áreas ainda preservadas formam um corredor ecológico de Mata Atlântica e ambientes marinhos que se completa no rumo norte com a área de preservação da Ilha do Cardoso e Cananéia, em São Paulo, e ao sul com a Baia de Babitonga, em São Fransisco do Sul, Santa Catarina.

Neste corredor, espécies nativas da Mata Atlântica, como a Jiçara ou palmito, a peroba, canela-preta, canela-sassafrás, xaxim-sem-espinho e várias espécies de bromélias, são alvos constantes da exploração ilegal.  Correm sérios riscos de ficarem restritas às reservas públicas e particulares, se a segurança conseguir deter o saque. Das 593 espécies vegetais citadas como ameaçadas de extinção na Lista Vermelha da Flora Ameaçada de Extinção no Estado do Paraná, publicada pela Secretaria do Meio Ambiente estadual em 2010, em parceria com o Ibama, foram catalogadas 169 espécies presentes na Mata Atlântica. Essa situação está ligada ao ritmo de destruição do bioma, que, nos últimos 30 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, perdeu 50% da cobertura vegetal original, só no litoral.

De acordo com dados da ONG “BirdLife International”, 13 espécies de aves globalmente ameaçadas de extinção são encontradas no litoral do Paraná, entre eles o papagaio chauá  ou da-cara-roxa, o Bicudinho-do-brejo e a Maria-catarinense. Um levantamento preliminar, realizado pelo Ibama e pelo governo paranaense, na década de 1990, registrou no ambiente litorâneo 250 espécies de aves, 95 de mamíferos e 69 de répteis. Outro diagnóstico, realizado na porção sul da Serra do Mar, catalogou um número considerável de espécies de aves e mamíferos que corresponde a 73% da fauna de todo o território paranaense.

Memória cultural

Não bastasse a exuberante natureza, a memória histórica e cultural do paranaense encontra no litoral o seu berço. Os Guaranis, que habitavam em grande quantidade a região e sobreviviam da floresta e do mar, deixaram sabedoria, caminhos montanhas acima rumo ao planalto, vestígios e descendentes. Hoje alguns poucos deles vivem em Pontal do Paraná, Superagui e algumas outras ilhas da baia. Paranaguá, Antonina, Morretes e Guaraqueçaba guardam a memória da chegada dos portugueses e sua insaciável sede de riquezas.

Infraestrutura ameaçada

As mesmas características que dão ao litoral uma das maiores concentrações de biodiversidade do planeta e a memória da colonização do estado, atraem o interesse econômico, a ocupação irregular, o crescimento desordenado e o alto risco de desastres ambientais. Não é difícil imaginar o resultado de toda essa pressão sobre o meio ambiente.

Território ocupado pelos portugueses a partir do século XVI, que lentamente se multiplicaram e se instalaram ao longo dos cursos d’água, ocupando vales e pequenas encostas, a planície litorânea é hoje destino de um número cada vez maior de pessoas. Não só durante a temporada de verão, quando a população litorânea mais que triplica. Famílias de baixa renda vindas da Região Metropolitana de Curitiba e do interior estão chegando cada vez em maior número, ocupando espaços em áreas cada vez mais adensadas. Sobrevivem da agricultura de subsistência, pesca artesanal e, em muitos casos, do comércio ilegal da flora e da fauna. Segundo informações das prefeituras locais, o fluxo migratório dessas famílias não pára de crescer. Pontal do Paraná, por exemplo, segundo o Censo IBGE 2010, tem quase 21 mil habitantes, um crescimento de mais de 46% se comparado ao Censo de 2000. Do total de habitantes do município, apenas 177 vivem na zona rural. Em todas as outras seis cidades do litoral paranaense a situação não é diferente.

Abastecer de água e dar condições de saneamento básico a estas populações é só um dos muitos problemas que afetam diretamente o meio ambiente. (Publicado na edição 35 da revista “Bem Público”).

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