Orgânicos, um grande negócio na agricultura familiar

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A Verde Brasil produziu em 2014 30 toneladas de morango orgânico. Crédito da foto: VB.

No caminho inverso do êxodo rural, família paranaense volta ao campo para produzir e industrializar frutas orgânicas, gerando emprego, renda e vida saudável

Por Marcos Scotti – No Brasil, 84% dos estabelecimentos rurais estão nas mãos de agricultores familiares. São 4,3 milhões de propriedades que abastecem 70% do mercado interno de alimentos no país. As informações são do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, divulgadas em 2014.

Nos três estados do sul do país – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – são 875.907 propriedades ocupadas pela agricultura familiar, dados da FAO, que, alem de produzirem o alimento que vai para a mesa dos brasileiros, contribuem com mais de 38% do valor bruto da produção agropecuária brasileira e perto de 75% da ocupação no meio rural.

Uma destas propriedades pertence às famílias de Hário e Jussara e produz 30 toneladas anuais de morango orgânico. A Verde Brasil, empreendimento criado por eles, dá emprego para 23 pessoas e abastece mercados no Paraná e Santa Catarina e fornece alimento saudável à escolas da região onde está instalada. 

Hário Tieppo e Jussara Solek  se conheceram em Curitiba, depois de formados. Ele em engenharia eletrônica e economia; ela em economia. Namoraram, casaram, tiveram filho. Jussara cresceu em Piraí do Sul, a cerca de 200 quilômetros da capital paranaense. Foi para Curitiba para estudar. Os irmãos a seguiram. Hário cresceu na cidade.

Famílias tradicionais. Sempre cultivaram hábitos e valores morais, éticos e saudáveis. Tanto que isso os levou a buscar na agricultura familiar e orgânica a inspiração para elevar a qualidade de vida e ao mesmo tempo empreender.

“A Verde Brasil surgiu de uma conversa entre eu e minha esposa em que imaginávamos como poderíamos ajudar, e ao mesmo tempo unir, a família em torno de um empreendimento. Pensávamos em uma atividade que pudesse gerar emprego, trabalho e desenvolvimento”, conta Hário.

A Verde Brasil – uma agroindústria orgânica e familiar – hoje é a realização de uma idéia, um planejamento que fez uma família fazer o caminho inverso do êxodo rural. Hário, sua esposa, e, aos poucos, os irmãos (dez ao todo), voltaram a Piraí do Sul com um objetivo: cultivar a terra, torná-la produtiva, sobreviver e, o mais importante, colher produtos saudáveis, orgânicos. “Quando compramos a chácara, ainda não sabíamos exatamente o que fazer”, relembra Hário.

O ano era 1988. “Queríamos fazer algo que não estivesse fora dos valores cultivados na família. Queríamos uma coisa que fosse prazerosa e também que trouxesse para nós e para a comunidade alguma contribuição. Foi quando pensamos nos orgânicos”, explica o economista, agora também agricultor.

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A equipe da Verde Brasil em Curitiba. Ao centro, Jussara e Hário. Foto: VB.

Conhecimento e informação

Sem tradição ou experiência em lidar com a terra ou produzir alimentos, foi necessário a Hário e sua família adquirir conhecimento. “Quando surgiu esse projeto, onde tinha um curso voltado para o que nós queríamos, eu acabava indo fazer. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba. Adquiri esse conhecimento na literatura, nos cursos e na prática”, explica Luciano Tieppo, irmão, técnico em contabilidade, responsável pela tecnologia utilizada no projeto da Verde Brasil.

No caminho do aprendizado a ajuda veio de especialistas, técnicos e empreendedores. Extensionistas da Emater-PR e, principalmente, da Fundação Mokiti Okada, da Igreja Messiânica, contribuíram no repasse de tecnologias de produção. Luciano explica o envolvimento da igreja na produção de orgânicos: “A filosofia da fundação é a salvação pela agricultura natural, pela alimentação natural. E nós nos identificamos muito com essa filosofia”. Mantida pela Igreja, a fundação estimula e dá assistência técnica aos produtores que querem produzir alimentos naturais.

A Mokiti Okada é também uma certificadora de produtos orgânicos. “A Fundação foi quem nos certificou como produtores de orgânicos e nos acompanhou quando começamos esse projeto”, reconhece Luciano. De 2000 até 2010 a Verde Brasil foi certificada pela fundação. A partir de 2011, o Certificado de Produto Orgânico veio através do Tecpar.

Da terra ao fruto orgânico

Produzir um alimento orgânico não é tarefa fácil. Para o projeto da Verde Brasil se transformar em realidade foram dois anos só de cuidados com a terra, pesquisas e análises. Novamente Luciano explica: “A primeira coisa que uma certificadora de orgânicos faz é analisar a terra. E, normalmente, leva-se em torno de dois a três anos para que se consiga uma terra apta a produzir um produto orgânico”.  “Por muitos anos, pagamos para desenvolver esse projeto”, emenda Hário.

O que garante uma terra apta à produção de produtos naturais é uma série de tecnologias aplicadas que dão sustentabilidade à produção e garantem a certificação. Proteção de nascentes e da terra, plantio de determinadas espécies que contribuem para equilibrar os nutrientes no solo ou adubar, medidas de controle ou reposição de nutrientes e análises constantes. Se os vizinhos usam agrotóxicos, barreiras verdes protegem a propriedade. Se a terra já era explorada, é preciso deixá-la descansar – todo produto químico tem período de carência e é preciso que esse tempo seja respeitado. Se pragas ou doenças atacam, o controle deve ser biológico.

“Por isso esse período de dois a três anos para se começar um plantio”, explica Luciano. “Quando decidimos comprar a propriedade, conseguimos adquirir uma terra descansada, que não sofre a influência de vizinhos, as áreas aos arredores não são cultivadas, é uma encosta de morro, tem área de mata nativa, fonte de água”, conta ele.

Para o agricultor, principalmente o pequeno, cultivar orgânicos torna-se dispendioso em função de detalhes indispensáveis que caracterizam o produto. “Não é nem que eles não queiram produzir orgânicos, mas é uma questão de sobrevivência”, justifica Hário.

Isso é fato. A produção de alimentos orgânicos no Brasil só não é maior devido à dificuldade do produtor rural em migrar do plantio convencional para o orgânico. Principalmente nas pequenas propriedades. A necessidade de plantar, cuidar, controlar pragas e doenças, colher e vender faz com que esse produtor lance produtos químicos na lavoura para garantir a colheita. “É diferente quando você tem alguém de fora que vá fazendo os investimentos necessários para que aquilo se desenvolva”, completa Hário.

Na propriedade dos Tieppo e dos Solek, os resultados começaram a aparecer a partir do terceiro ano, com a produção de morango orgânico – em 2014, essa produção chegou a 30 toneladas do fruto. Mas ainda era necessário buscar a sustentabilidade para o empreendimento. “Foi quando pensamos em agregar valor ao produto. Pensamos na industrialização”, conta o economista.

Num espaço pequeno da casa, onde foram instaladas uma despolpadeira e uma embaladeira, de forma artesanal, surgiu a polpa de morango orgânico da Verde Brasil.

Os resultados logo apareceram. Em pouco tempo Hário e Luciano estavam conversando com outros produtores de frutas orgânicas, também certificados, para ampliar a oferta e racionalizar o uso dos equipamentos e da mão de obra. A Verde Brasil passou a oferecer, alem do morango, polpas de manga e acerola. Na medida em que o mix de frutas crescia, o mercado expandia e a empresa também. “Com isso, todos entenderam o empreendimento como um negócio da própria família e fomos agregando pessoas”, conta Hário. Hoje, o empreendimento tem 23 pessoas diretamente envolvidas, 12 das quais são da família.

vb3Comercialização em alta

Com a produção e o consumo de alimentos saudáveis numa curva ascendente nos últimos anos, a família foi atrás de novos mercados. “Foi quando conhecemos o Programa Nacional da Alimentação Escolar – o Pnae, instituído pelo governo federal, que incentiva as escolas públicas a incluírem produtos naturais na merenda escolar”, explica Hário.

“Nós nos inscrevemos nesse programa, não só pelo programa em si, mas também por uma série de contatos feitos com pessoas daqui, da prefeitura de Piraí e dos municípios da região. Isso nos permitiu conhecer o mercado da alimentação escolar e traçar um planejamento estratégico forte, buscando ampliar nossa capacidade e oferecer esses mesmos produtos para mais prefeituras”, conta o empreendedor.

A participação no Pnae permitiu à VB fechar contratos com as prefeituras dos municípios próximos a Piraí do Sul para fornecer polpa – “que vira suco”, e geléia – “que passa no pão e vira um alimento saudável”, ilustra Hário, explicando que a geléia orgânica produzida pela Verde Brasil é composta de 70 a 80% de frutas e o restante de açúcar orgânico. “E isso é energia. As crianças precisam de frutas, de uma alimentação saudável, natural”, conclui ele.

Com essa mentalidade, as prefeituras de Pirai, Castro, Ventania e Carambei, todas no Paraná, fecharam contrato para colocar os orgânicos na merenda escolar de suas escolas. “Em 2015, vamos ampliar esse mercado para a nossa região, para o Paraná e  Santa Catarina. “Aqui em Piraí do Sul”, explica Luciano, “a prefeitura também fica com o morango fresco. Aqui entregamos também o feijão, o tomate e o alho, eventualmente. Todos orgânicos e produzidos aqui na propriedade, embora em menor escala”.

Embora o Pnae faça algumas exigências para que o produtor rural seja um fornecedor da merenda escolar, como ser uma empresa organizada, documentação e impostos em dia, alem de participar de um processo de concorrência, o que dá transparência à compra dos produtos por parte dos governos, o programa acaba incentivando a produção de orgânicos.

Em 2014, o programa transferiu R$ 3,6 bilhões, que beneficiaram 43 milhões de alunos da educação básica (educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos), segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. 30% deste valor são destinados exclusivamente para a compra de produtos vindos diretamente da agricultura familiar. A Verde Brasil está nesse universo.

“Infelizmente”, conta Hário, “nossa presença aqui ainda não levou outros agricultores a cultivar orgânicos. Mas, na medida em que a gente busca incentivar nossos vizinhos e mostramos segurança no que estamos fazendo, como empresa com capacidade de crescimento, com um produto de qualidade, acredito que essa realidade vá mudando”.

Por outro lado, na medida em que a empresa aumenta a sua capacidade em industrializar frutas, transformando-as em geléias e polpas, cresce a demanda pelos produtos orgânicos. Isso, certamente, é um incentivo aos nossos vizinhos e produtores da região. “Se eles plantarem orgânicos, nós temos condições de absorver a produção”, diz Hário, confidenciando que estão em contato com os vizinhos para incentivá-los a produzir alimentos orgânicos. A Verde Brasil tem condições de industrializar e negociar a produção dos vizinhos e de transferir tecnologia. “A única exigência é que este produto seja orgânico”, completa o produtor.

Nem sempre foi assim com os orgânicos. Até o final do século passado, a produção de alimentos naturais no Brasil era parca. Em 2013, segundo dados do Portal Brasil, do governo federal, o número de produtores orgânicos era de 6.719, ocupando 10.064 unidades de produção em todo o Brasil, aproximadamente 1% de todas as propriedades rurais brasileiras. Na região sul são 1.896 produtores e 3.165 unidades de produção orgânica.

No entender do empreendedor da Verde Brasil, o que falta para esse mercado de orgânicos crescer ainda mais é incentivo e esclarecimento: “Na medida em que o produtor e o consumidor ganhem em incentivos, um para produzir e o outro para consumir, cria-se demanda. O pequeno produtor precisa de respaldo para que os riscos na produção sejam menores. No aspecto governamental, no que diz respeito ao incentivo, o que existe fica no campo teórico”.

“Produzir orgânicos, como foi dito aqui, é um processo um pouco mais longo do que simplesmente produzir alimentos. O produtor de orgânico precisa de uma carência maior, talvez juros menores. A realidade hoje é que você faz um empréstimo e tem onze meses para pagar. Às vezes você nem terminou de colher e já tem que desembolsar para pagar o empréstimo. O produtor precisaria de um prazo maior, principalmente para quem está começando a produzir orgânico. Talvez o governo pudesse ajudar nesse sentido”, completa Luciano.

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30 de janeiro de 2015 · 9:05

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