Publicação inédita comprova que o lixo está contaminando os peixes de forma irreversível

Segundo a publicação “Pollution and Fish Health in Tropical Ecosystems”, lançado recentemente no Brasil, a poluição de ambientes aquáticos está contaminando os peixes de forma irreversível.  Continuar lendo

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Mar de lixo

Por Marcos Scotti e Arthur Conceição – O que o mar leva o mar devolve. Nem sempre no mesmo lugar, mas devolve. Essa simples constatação é suficiente para se entender a quantidade de lixo encontrada nas praias ao redor do mundo, mesmo as mais desertas. Os escombros que resultaram do tsunami que devastou parte do Japão, chegaram às ilhas do Havaí.

Aquela garrafinha de água que você esqueceu na praia neste verão e o mar levou, com certeza vai acabar em outra praia. Ao mesmo tempo em que se discute a balneabilidade e a questão do saneamento urbano das praias brasileiras, vive-se um problema controverso: o que fazer com o lixo e o esgoto produzido pelas populações que habitam as cidades litorâneas?  Continuar lendo

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Lixo na reserva

Descartado por um navio, lixo tóxico foi parar na Ilha do Cardoso. Foto: Arthur Conceição.

Descartado por um navio, lixo tóxico foi parar na Ilha do Cardoso. Foto: Arthur Conceição.

Reserva da biosfera, declarada pela Unesco, patrimônio natural da humanidade, berçário estuarino lagunar onde nasce grande parte das espécies de peixes e crustáceos que vivem no mar e garantem a cadeia alimentar marinha, o litoral norte paranaense e sul de São Paulo sofre a pressão constante do crescimento populacional e desenvolvimento econômico, apesar dos esforços de conservação e preservação. O lixo aqui também é problema. “É só entrar no manguezal para ver o tamanho do problema”, dizem os pescadores da Ilha do Superagui, Parque Nacional criado em 1989.

Em 20 quilômetros percorridos, entre a faixa de areia e a restinga, os dejetos se misturavam à imensidão da praia e aos pássaros marinhos. Não fosse o deserto que é a praia, poderia se dizer que o lixo havia sido deixado por pessoas pouco conscientes. No entanto, a origem do lixo é uma só: o mar. Preservativos, garrafas de refrigerantes de origem internacional, produtos plásticos em vários formatos,  galões de óleo de toda espécie, sucatas de equipamentos de informática e uma infinidade de tralhas e traquitanas que são disputadas por uma quantidade enorme de pássaros marinhos, deixam a natureza à mercê da civilização.

Sofrem os pescadores, que dependem do mar para sobreviver, e sofrem as espécies da fauna e flora, algumas endêmicas, que só existem ali, naquele santuário ecológico.

Segundo Marcelo Chassot Bresolin, chefe do Parque Nacional do Superagui, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o lixo acumulado na praia Deserta da Ilha do Superagui é proveniente dos navios, que transitam pelo Porto de Paranaguá e das cidades litorâneas. “A logística de qualquer retirada de material é complexa por haver resíduos imensos. Todos esses dejetos estão espalhados pela praia. A logística para recolher este lixo envolve  pequenas carroças e balsas para depois ser transportado até o continente. Isso não pode ser realizado somente pela equipe da unidade, que é pequena. Depende de parcerias com a sociedade civil”.

É o que acontece sistematicamente, por exemplo, no Rio Grande do Sul. No final do ano passado, um mutirão de pescadores tirou da foz do rio Jacuí, no Rio Grande do Sul, em dois dias, 25 toneladas de lixo, uma quantidade 150% superior a encontrada em 2010, quando aconteceu o 3º mutirão no Delta do Jacuí. Geladeiras, aparelhos de televisão, forno de microondas, sofás, capacetes, cadeiras de praia e pneus, muitos pneus, foram recolhidos. Vânia Mara, gestora da Área de Preservação Ambiental do Delta do Jacuí, num desabafo, diz que os pescadores, por tirarem sua sobrevivência das águas e respeitarem a época de reprodução dos peixes, sabem da importância de se manter os rios e mares limpos. No entanto, a população só se dá conta da realidade quando vai à praia e encontra o mar sujo.

Outro exemplo de consciência ecológica vem do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, no litoral sul de São Paulo. “Estamos sempre limpando a praia e levando o lixo para a cidade de Cananéia, ou as vezes queimamos alguma coisa para não acumular”, conta Antonio das Neves Cubas, pescador da Vila de Cambriú, no Cardoso. “As piores sujeiras acontecem quando bate o vento leste, acompanhado de tempestades. Aí o mar fica bravo. Parece que tudo aquilo que está no fundo vem para cima e chega até a praia. Já encontramos muitos golfinhos e tartarugas mortas por causa desta lixarada”, esbraveja o pescador.

Gestora do parque estadual, Márcia Santana de Lima explica que o lixo nas praias do parque atualmente está controlado. “O aparecimento de lixo na praia tem muito a ver com as correntes costeiras. Não temos grandes relatos de acúmulo de lixo marítimo na Ilha do Cardoso. Sempre ocorrem campanhas de limpeza na praia e os moradores auxiliam coletando o lixo encontrado na areia”, destaca Márcia. Apesar da responsabilidade da coleta de resíduos nas praias da Ilha do Cardoso ser da prefeitura de Cananéia, são as ações voluntárias dos moradores das comunidades que efetivamente surtem efeito. (Publicado na edição 43 da revista “Bem Público”).

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Pressão põe em risco biodiversidade no litoral sul

 

Por Marcos Scotti – Manguezais, restingas, florestas, planícies, montanhas, rios, cachoeiras, baías, mar e ilhas paradisíacas. Poucos lugares no imenso litoral brasileiro reúnem num espaço relativamente pequeno tanta diversidade de vida e ambientes quanto o litoral do Paraná.

Espremido entre a Serra do Mar e o Atlântico, uma faixa de terra de não mais de 98 quilômetros de sul a norte, no particular ecossistema do litoral paranaense, o papagaio chauá ressurgiu da extinção, o mico leão da cara preta, descoberto em 1990 na Ilha de Superagui, espécie endêmica, só encontrada naquele ambiente de Mata Atlântica, sobrevive, e o biguá ainda voa.  Continuar lendo

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Preservar evita prejuízo

Por Marcos Scotti e Arthur Conceição – Em fevereiro de 2011 as chuvas que caíram sobre o litoral do Paraná levaram pontes, árvores, pedras, muita terra e casas. Ao todo 548 residências foram destruídas por completo e outras 3.006 danificadas nas cidades de Antonina, Morretes, Matinhos e Paranaguá. Apesar do tamanho da tragédia somente quatro mortes foram registradas, felizmente. Segundo o geólogo Eduardo Salamuni, ex-presidente da Mineropar – Minerais do Paraná S/A, órgão técnico responsável do governo do estado pelo estudo dos solos -, se os morros da Serra do Mar não fossem protegidos, não tivessem cobertura vegetal, o desastre seria ainda maior. “Teríamos uma catástrofe maior do que a que ocorreu na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro, se não tivessemos áreas preservadas. As unidades de conservação evitaram uma destruição maior”, explica Salamuni. O geólogo explica que também as planícies preservadas no seu estado natural, entre a serra e o mar, e os manguezais, têm vital importância para não assorear os rios e canais de navegação. Biólogos e engenheiros ambientais partilham da mesma opinião: o espaço uniforme de mata existente de forma alinhada entre as montanhas e o mar é um verdadeiro mosaico de diferentes espécies de plantas, que ajudam a conter catástrofes ambientais. Além disso, a manutenção da flora no litoral corrige os ventos e tempera a umidade da serra. Economicamente esse espaço florestal deve ser preservado. Segundo o ambientalista Clovis Borges, diretor executivo da SPVS – Sociedade de Pesquisa da Vida Selvagem, a atividade portuária está intimamente ligada à preservação ambiental da planície litorânea. “Por diversas razões, os ‘negócio do porto’ são vistos de maneira isolada do restante do litoral, muito embora sejam dependentes, por exemplo, da conservação das encostas da Serra do Mar e planícies, altamente suscetíveis a processos erosivos que acarretam assoreamentos, encarecendo sobremaneira a manutenção das atividades portuárias. O exemplo é simples: o desassoreamento do canal da Galheta, por onde entram os navios para o porto, está orçado há um custo superior a R$ 500 milhões”, explica Borges.  A preservação serve ainda para conter a ocupação irregular e, consequentemente, evitar prejuízos econômicos provocados pelo aumento da densidade urbana. Plano de Contingência O Porto de Paranaguá esteve sempre envolvido em questões polêmicas quanto à degradação ambiental do litoral. Porém, como a manutenção da atividade portuária depende diretamente da preservação da água e das matas, os ajustes feitos pelo poder público permitiram a ampliação das atividades portuárias de forma mais sustentável. No entanto, não basta apenas o porto se adaptar ou compensar as perdas ambientais provocadas por esta expansão. Os graves acidentes ocorridos em anos passados, como o derramamento de óleo provocado pelo rompimento do oleoduto da Petrobras, ou o desastre ambiental provocado pelo derramamento de óleo do navio Vicuña, em 2004, ou mesmo a tragédia de fevereiro de 2011, colocaram em evidência a carência extrema dos municípios litorâneos no que se refere à existência de planos de contingência minimamente adequados. Mesmo hoje (2014), não há entre esses municípios nenhum plano de enfrentamento de situações de crise, com pessoal capacitado, equipamentos especiais, tecnologia, treinamento das comunidades ou ações de monitoramento. Segundo agentes da Defesa Civil de Paranaguá, se ocorrer um grande acidente ambiental na região o estado não tem equipamento e nem equipes capacitadas para enfrentar um problema desses. Plano Diretor Outra preocupação dos ambientalistas está relacionada à pressão que vêm sofrendo os planos diretores dos municípios litorâneos, devido à possibilidade de novos investimentos. Hoje, apenas Paranaguá e Guaraqueçaba  município que possui quase 80% do seu território declarado como área de preservação ecológica -, têm planos diretores aprovados junto ao Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral Paranaense – Colit. Existe um número expressivo de empreendimentos de grande porte, em geral concentrados no Porto de Paranaguá e Pontal do Paraná. São atividades importantes para a economia brasileira, mas em contrapartida a questão da sustentabilidade não avançou na inclusão dos planos diretores. “Os portos são verdadeiros gargalos para expansão da econômica brasileira e o PAC tem prioridade sobre o setor portuário, porém não há nenhum plano em favor do meio ambiente. A expansão estrutural desordenada pode ser irreversível, podendo encarecer o futuro da logística. Temos exemplos como os Portos de Santos e Itajaí, que sofrem com assoreamento do canal de navegação, devido sua expansão não ter levado em conta aspectos de sustentabilidade ambiental. Temos uma cultura socioambiental que não se trabalha na origem do problema e sim quando é gerada uma situação critica, diz Mario Mantovani, da Fundação SOS Mata Atlântica. (Publicado na revista “Bem Público”, edição 35).

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Ouro do Jalapão

Artesanato com capim dourado gera renda e sustentabilidade no leste do Tocantins

Artesanato com capim dourado gera renda e sustentabilidade no leste do Tocantins

Todo final de setembro é assim. As veredas do Jalapão são visitadas por dezenas de mulheres do povoado de Mumbuca e das comunidades indígenas que vivem no interior do Parque Nacional no Leste do Tocantins em busca de ouro. Com mãos habilidosas, elas colhem o capim dourado, matéria prima para um dos mais belos artesanatos do sertão brasileiro.

O capim dourado nada mais é do que uma flor branca (syngonanthus nitens), da família das sempre-vivas. Somente a haste da flor é usada pelos artesãos. A flor, que dá origem às sementes, fica no campo. É lei ambiental, garantida pela área de preservação. Mas também é consciência da população que vive na região. Com as sementes de volta à terra, a próxima leva da produção pode ser planejada.Por conta desta cadeia de sustentabilidade, a colheita do capim dourado só acontece entre setembro e novembro, quando começa a estação das chuvas na região.

O Jalapão é uma área de 34 mil quilômetros quadrados, na transição entre o cerrado e a caatinga, lugar de vegetação rasteira, muito parecido com as savanas africanas. Lugar de turismo sustentável, no Jalapão se faz rafting em rios de águas cristalinas, toma-se banho de cachoeira, se caminha entre chapadas douradas pelo sol e formações rochosas de formas e cores variadas, e enormes dunas de areias douradas, fruto da erosão das rochas de quartzo provocada pelo vento e pela água. As dunas chegam a 30 metros de altura. No Jalapão também tem capim dourado.

Fonte de renda de muitas famílias de artesãos espalhados pelos municípios do parque, a arte do capim dourado nasceu com os índios, e foi, segundo a cultura popular, contada à avó de Dona Miúda, matriarca de Mumbuca, povoado formado por descendentes de escravos, e passada de geração a geração. Hoje o artesanato com capim dourado, que também utiliza palhas de buriti, uma árvore típica da região, sementes e pedras ornamentais, é produzido e comercializado em quase todos as comunidades.

O brilho metálico do capim dourado “costurado” pelas mulheres dá aspecto único aos brincos, pulseiras, chapéus, bolsas, mandalas, cestos e o que mais a imaginação dos artesãos criar.

Nilton Jankowski, empreendedor curitibano, se encantou pelo artesanato do Jalapão. “As peças produzidas lá são balíssimas, É ouro”, costuma comentar Nilton, que passou a importar o artesanato do Tocantins para revender no sul.

É Nilton quem conta: “Em 2004, o Instituto Natureza do Tocantins elaborou regras para a colheita das hastes de capim dourado utilizadas na confecção artesanal. Estas regras estão na Portaria 092/2005. Período de colheita restrito, as sementes ficam na terra e as hastes do capim não podem sair da região in natura. Tudo isso garante sustentabilidade às comunidades – já que gera renda aos artesãos do Jalapão – e exclusividade aos produtos ali produzidos”.

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