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Mar de lixo

Por Marcos Scotti e Arthur Conceição – O que o mar leva o mar devolve. Nem sempre no mesmo lugar, mas devolve. Essa simples constatação é suficiente para se entender a quantidade de lixo encontrada nas praias ao redor do mundo, mesmo as mais desertas. Os escombros que resultaram do tsunami que devastou parte do Japão, chegaram às ilhas do Havaí.

Aquela garrafinha de água que você esqueceu na praia neste verão e o mar levou, com certeza vai acabar em outra praia. Ao mesmo tempo em que se discute a balneabilidade e a questão do saneamento urbano das praias brasileiras, vive-se um problema controverso: o que fazer com o lixo e o esgoto produzido pelas populações que habitam as cidades litorâneas?  Continuar lendo

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Pressão põe em risco biodiversidade no litoral sul

 

Por Marcos Scotti – Manguezais, restingas, florestas, planícies, montanhas, rios, cachoeiras, baías, mar e ilhas paradisíacas. Poucos lugares no imenso litoral brasileiro reúnem num espaço relativamente pequeno tanta diversidade de vida e ambientes quanto o litoral do Paraná.

Espremido entre a Serra do Mar e o Atlântico, uma faixa de terra de não mais de 98 quilômetros de sul a norte, no particular ecossistema do litoral paranaense, o papagaio chauá ressurgiu da extinção, o mico leão da cara preta, descoberto em 1990 na Ilha de Superagui, espécie endêmica, só encontrada naquele ambiente de Mata Atlântica, sobrevive, e o biguá ainda voa.  Continuar lendo

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Dinheiro no Mar

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Por Marcos Scotti – Uma das profissões mais antigas da humanidade está revendo seus conceitos e praticando o que tanto se fala desde a Eco92, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro: o desenvolvimento sustentado.

Em fazendas marinhas, peixes, camarões, ostras, mariscos, vieiras, entre outras espécies de frutos do mar, ganham ‘status’ de especiarias, despertam o interesse econômico, aguçam as glândulas salivares, geram renda e qualidade de vida e contribuem para o equilíbrio do meio ambiente. Na alimentação, esses frutos do mar são uma ótima opção na manutenção da saúde do ser humano.

Mas, para chegar a essa constatação, foi preciso o pescador artesanal sentir na pele a diminuição radical da quantidade de pescados, fruto da caça predatória no mar, e os organismos públicos se sentirem pressionados, quer seja pela necessidade de socorrer socialmente comunidades litorâneas tradicionais ou pela necessidade de se definir políticas de proteção ambiental para o ambiente marinho.

Assim, no final do século passado – a partir de 1990 – o Brasil começou a despertar para a riqueza da vida nos oceanos e suas possibilidades econômicas, e passou a desenvolver estudos para a implantação de cultivos de diferentes espécies marinhas em fazendas protegidas em baías e estuários. Universidades, entidades públicas de ex-tensão rural e associações de pescadores passaram a pensar de forma racional a exploração de camarões, ostras, mariscos…

Santa Catarina saiu na frente. “Criar moluscos é uma solução para melhorar a renda e a vida do pescador, alem de manter o meio ambiente saudável”, diz Juarez Tadeu Espelocim dos Santos”, presidente do Sindicato dos Pescadores de Santa Catarina e um dos fundadores da Associação dos Maricultores da Palhoça, município da Grande Florianópolis. “Naquele tempo, os costões das praias e ilhas do litoral eram ricos em mariscos. Era fácil apanhar e levar para a praia, para a peixaria ou para as fazendas que começavam a ser implantadas ali no Mar de Dentro”, conta Juarez, de frente para o mar da Pinheira, onde vive com Dona Rosa, sua esposa. Hoje, lamenta Juarez, a dificuldade começa em se encontrar sementes para a produção comercial de mariscos. “Nos costões, as pedras estão limpas e o que é produzido em laboratório não é suficiente”, conta ele.

Osmarina Sedrez herdou do pai a vocação para a pesca. Com duas áreas para a malacocultura (cultivo de mariscos) que somam 15.200 metros quadrados na Ponta do Papagaio e Praia do Sonho, na Palhoça, Osmarina – que também administra a peixaria fundada pelo pai – diz que a maricultura é uma atividade de risco e precisa de mais atenção das autoridades. “Além dos problemas com a aquisição de sementes, o financiamento para a atividade praticamente não existe, como também não existe um seguro que cubra a produção em caso de perdas”, diz a malacocultora que já viu algumas vezes sua produção ser levada pelo desequilíbrio ambiental no mar. “No ano passado, por duas vezes a maré vermelha impediu a colheita. Os prejuízos foram grandes”, conta Osmarina.

Ivan Taffarel, oceanógrafo e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina, lamenta a falta de valorização da atividade: “Há dez anos o preço do marisco não sofre alteração. Nós temos pesquisa suficiente e condições favoráveis para produzir muito mais do que produzimos e com qualidade melhor. No entanto, ainda estamos engatinhando por falta de financiamento e políticas claras para o setor”, diz Ivan, que divide seu tempo entre a UFSC, sua produção de mariscos na Ponta do Papagaio e a consultoria que presta a uma empresa dos EUA, especializada na produção de sementes. “Lá (nos EUA) são produzidas mais de 40 milhões de toneladas de sementes a cada nova safra”, compara o oceanógrafo.

Produção brasileira – Relatório da FAO, organismo das Nações Unidas para a alimentação, mostrou que a produção da aqüicultura brasileira respondeu por um pouco mais de 38 milhões de toneladas em 1999. Deste total, 17,3 milhões de toneladas eram de peixes de água doce e 9,1 milhões de toneladas de moluscos (o Brasil produz ainda plantas aquáticas, peixes mixualinos, crustáceos, peixes marinhos e outras espécies como rãs e quelônios).

Segundo a Epagri, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, somente a produção de moluscos comercializados em Santa Catarina (mexilhões  ou mariscos, ostras e vieiras) em 2008 foi de pouco mais de 13 milhões de toneladas, 95% de toda a produção brasileira. O pico da produção catarinense chegou a 15 milhões de toneladas em uma safra. “Muito pouco para um país com tanta água e diversidade”, diz Taffarel. Transformada em moeda, a produção daquele ano movimentou R$ 29.709.300,00 no estado. “De tudo o que se arrecada com a venda do marisco, muito pouco fica com o produtor”, reclama Osmarina Sedrez.

No estado catarinense são 643 maricultores, representados por 20 associações municipais, uma estadual, uma cooperativa e duas federações, distribuídas em 12 municípios na região litorânea entre os municípios de Palhoça – que responde por mais da metade da produção de SC – e São Francisco do Sul. Aliás, as águas da praia da Pinheira, no município de Palhoça, já foram consideradas as melhores do mundo para a criação de moluscos.

“A exemplo de outros programas de sanidade animal (o estado é o único da Federação considerado território livre da aftosa sem vacinação), Santa Catarina tem tecnologia para garantir moluscos de qualidade ao consumidor”, diz o empresário e produtor no “Mar de Dentro”, a baía sul de Florianópolis, na Palhoça, Nilton Pereira.

Pesquisa de vanguarda – Em Santa Catarina, estudos de laboratório são conduzidos pela Epagri, Universidade do Vale do Itajaí – Univali, e Universidade Federal de Santa Catarina  UFSC, que buscam disponibilizar tecnologia, produzir sementes, monitorar a qualidade da água nos locais de produção e estudar a inclusão de novos moluscos para cultivo no estado.

A maricultura ganhou impulso e transformou Santa Catarina no maior produtor brasileiro de moluscos com a implantação pela Universidade Federal de Santa Catarina do Laboratório de Moluscos Marinhos – LMM, em 1983, um braço do Departamento de Aqüicultura da UFSC. O laboratório, instalado em parceria com a Epagri, mudou o perfil das colônias de pesca do litoral catarinense e transformou a paisagem das baías e estuários da Grande Florianópolis.

O LMM se dedicou inicialmente ao estudo da produção de sementes de ostras japonesas (Crassostrea gigas), isso porque, no entender dos pesquisadores, no caso dos mariscos é preferível, em termos de viabilidade econômica, a obtenção de sementes a partir dos assentamentos naturais com tecnologia ambiental ou através do uso de coletores manufaturados – cordas ou cabos esticados entre as pencas de mariscos – previamente instalados em locais adequados à captação. Tais sementes, ao serem desovadas pelos moluscos adultos, se fixam rapidamente onde encontram apoio para isso. A tecnologia dos coletores nasceu em laboratório, numa alternativa à caça desenfreada das conchas nos costões.

Na Penha, o Laboratório de Produção de Moluscos do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar da Univali – Universidade do Vale do Itajaí, produz tecnologia e sementes de mariscos, ostras e vieiras para o litoral centro-norte catarinense. “Nossos estudos foram iniciados em 1994 com o intuito de profissionalizar cientificamente a produção de moluscos, uma das principais fontes de renda oriundas de recursos marinhos no mundo”, comenta o diretor do CTTMar, Fernando Luiz Diehl.

“Apesar dos importantes números do crescimento da atividade nos últimos anos, a captura desordenada de sementes de mariscos nos costões se reflete diretamente na diminuição da produção. Com o laboratório, pretende-se minimizar esse impacto”, explica Gilberto Manzoni, professor responsável pelo laboratório.

No Paraná, a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos trabalha com o programa “Zoneamento Marinho ‘Mar e Costa’”, para promover o desenvolvimento sustentável no litoral do estado. “É muito importante que tenhamos ações voltadas à conservação da área costeira devido à constante pressão da atual dinâmica de uso e ocupação”, considera o ex-secretário Rasca Rodrigues. Um levantamento completo sobre potencialidades e fragilidades de cada ecossistema de 103 comunidades ribeirinhas do litoral paranaense deu à secretaria subsídios para definir ações para o crescimento ordenado da maricultura no estado. Entre as atividades do programa está o licenciamento ambiental para produção de ostras e mariscos e o monitoramento da qualidade ambiental em toda área costeira.

Considerado um dos mais complexos sistemas estuarinos do mundo, as baías de Paranaguá, Antonina, Guaraqueçaba e Guaratuba – 52 mil quilômetros quadrados, a maioria preservados em áreas de proteção ambiental – oferecem condições propícias à criação de ostras nativas. Nesse caminho trabalham os laboratórios marinhos da Universidade Federal do Paraná e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, aliados ao sistema de Extensão Rural da Emater-PR.

O Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, desde 2005, produz sementes de ostras nativas para os produtores do litoral. O Projeto de Desenvolvimento da Aquicultura e Pesca no Litoral do Paraná, coordenado pela Emater-PR, prevê a instalação de cultivos nos municípios de Guaraqueçaba, Paranaguá e Guaratuba. Num primeiro momento, 114 famílias de pescadores artesanais (aproximadamente 270 pessoas), vinculadas a associações ou colônias de pescadores, foram beneficiadas.

Na Universidade Federal, o projeto Cultimar, que recebeu prêmios nacionais de responsabilidade social, além de pesquisas para a demanda da maricultura, trabalha para aumentar a aceitação dos frutos do mar junto ao consumidor. Antônio Ostrensky, coordenador do Cultimar, explica que o projeto faz monitoramento quinzenal junto aos produtores de ostras. “Se o produto não tiver nenhum problema, emitimos um selo garantindo sua qualidade. Se algo de anormal for detectado, corrigimos a situação”, diz ele. (Matéria publicada originalmente na revista “Bem Público”, edição 29).

Maré vermelha

Em 2007, a Vigilância Sanitária apreendeu meia tonelada de mariscos no município de Bombinhas, Santa Catarina, devido à contaminação que provocou intoxicação em 130 pessoas que ingeriram o molusco. Diarréia, febre alta, dor de cabeça e vômito foram os sintomas registrados no atendimento médico.

A análise mostrou que os mariscos foram contaminados pela alga Dinophysis acuminata, com tamanho 50 vezes menor que a cabeça de um alfinete, responsável por  uma toxina que afeta o sistema digestivo humano. Aos mariscos, a toxina não afeta em nada.

A alga é um organismo comum nos mares. Quando em sua população normal, não causam problemas. No entanto, o desequilíbrio ambiental provocado principalmente pelo aumento da matéria orgânica e poluentes nas águas das baías e estuários, provoca uma explosão na população de algas. À essa explosão dá-se o nome de “Maré Vermelha”.

Ocorre que moluscos são organismos filtradores e, para não causarem intoxicações ao homem, precisam de água limpa para crescer sem problemas.

Para manter a qualidade de ostras, mariscos e vieiras, os laboratórios do Paraná e Santa Catarina realizam análises periódicas dos moluscos. “Mariscos e ostras são ótimos ‘termômetros’ ambientais. Se estiverem limpos, a água é boa”, dizem os técnicos.

Na região da Grande Florianópolis, o laboratório da UFSC recolhe amostras dos moluscos a cada 15 dias para análise. Ao menor sinal de contaminação, a comercialização é imediatamente suspensa. “Nesse caso é complicado. Passamos um bom tempo esperando um resultado que na maioria das vezes é negativo. Perdemos na comercialização”, reclama Osmarina Sedrez, maricultora na Palhoça. “É preciso agilidade na análise para que o produtor não tenha prejuízo”, diz ela. É preciso dizer que, com o afastamento da ‘Maré Vermelha’ os moluscos podem ser consumidos normalmente.

Em março de 2009 a Epagri iniciou o projeto projeto Controle Higiênico-sanitário de Moluscos Bivalves no Litoral de Santa Catarina, com recursos do Ministério da Pesca e Aquicultura e da Secretaria de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural. “Este projeto envolve investigações sobre a qualidade sanitária da água e dos moluscos nas áreas onde se cultiva moluscos bivalves no estado e também um monitoramento sobre florações de algas nocivas, conhecidas popularmente como marés vermelhas”, informa o pesquisador da Epagri/Cedap, Robson Ventura de Souza, lembrando que o projeto prevê também ações de educação sobre boas práticas sanitárias de manejo dos moluscos nas etapas pós-colheita.

Em andamento, o projeto contempla a realização de uma grande investigação sobre a situação sanitária de todas as áreas onde existem cultivos. Ações como o levantamento da localização das fontes de poluição hídrica e da proximidade dessas às áreas de cultivo, monitoramento envolvendo análises microbiológicas de água e dos moluscos, além de análises de metais pesados (chumbo, cobre, cádmio, mercúrio e zinco) nos moluscos são alguns dos parâmetros estudados num total de 40 pontos ao longo do litoral catarinense.

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